Você meu amigo, colega numismata, colecionador, juntador ou apenas curioso já se perguntou como são feitas as moedas que usamos todo santo dia?
- Já?
- E qual foi a resposta?
- É com uma prensa, claro. Não poderia ser com martelo...
O tempo do martelo para bater moedas passou já faz séculos. Pelo menos isto você sabe. Você sabe também, ou pelo menos imagina, que atualmente sejam utilizadas prensas com capacidade para cunhar milhares de moedas por minuto. Mas você conhece “todo” o processo produtivo das atuais moedas da segunda família do real? As etapas que precedem a estampagem, prensagem ou, como convém, a cunhagem das nossas tão queridas e amadas moedinhas?
Você me responde que assim, tim-tim por tim-tim, não sabe. Surpreender-me-ia se dissesse que sabe, já que a grande maioria dos colecionadores ignora este processo. Não acha importante.
Enganam-se. É muito importante saber os porquês e os como de cada moeda. A quantidade de peças conhecidas nos dá indícios da sua raridade, entretanto o estudo do entorno das moedas nos fornece informações sobre a qualidade das pessoas que as produz, e sobre o estágio tecnológico do país.
Foi com o intuito de mostrar que uma moeda não é apenas um pedacinho de metal com alguns hieróglifos, mas um livro de história. Um livro de história tão extenso que seriam necessárias milhares de páginas para ser escrito.
Neste artigo, como já diz o título, veremos apenas o processo de cunhagem das moedas. Processo este que coloca o Brasil ao par com as novas tecnologias na área da cunhagem de moedas.
Foi na Lídia, atual Turquia, durante o reinado de Creso, que apareceram as primeiras moedas, pelo menos segundo a mais aceita teoria monetária conhecida. Na Lídia as moedas eram cunhadas com um malho. O cunho do anverso era gravado manualmente em um tarugo (pilha ou cunho superior). Um pedaço de metal, ouro ou electro aquecido era colocado sobre outro tarugo (troquel ou cunho inferior), que estava firmemente apoiado em um cepo. O moedeiro então desferia uma pancada na pilha transferindo o cunho para o metal. Estava pronta uma moeda. Um processo artesanal e demorado, mas que perdurou por vários séculos.
Outro processo muito usado para a produção de moedas foi a fundição. O metal derretido era escorrido para dentro de moldes de areia ou barro que, depois de esfriados, eram abertos ou quebrados dando origem às moedas.
Estes processos foram melhorados com a invenção de diversos tipos de máquinas e ferramentas, tanto manuais quanto movidas por tração animal, rodas d’água, vapor e eletricidade.
Um dos fatos mais marcantes do contexto numismático foi a invenção do balancim (fig. 1), no século XVI, também chamado de prensa de parafuso ou rosca. Dos mais variados tamanhos, para cunhar das menores moedas até os grandes patacões, aos poucos este “engenho” foi sendo adotado por todas as casas da moeda européias e do novo mundo. Com exceção das moedas batidas pelos holandeses no Recife, as primeiras moedas cunhadas em solo brasileiro, a partir da abertura da Casa da Moeda da Bahia, em Salvador, em 1694, foram feitas com este tipo de engenho.
Pouco mais de 100 anos depois da sua introdução no Brasil, o balancim via o seu primeiro aperfeiçoamento significativo com a introdução da virola[i] fixa, em 1833. Em dezembro de 1855, outro grande avanço tecnológico foi a introdução de uma máquina de cunhar movida a vapor. Em 11 de fevereiro de 1860, foi inaugurada na Casa da Moeda do Império, uma prensa a vapor totalmente construída no Brasil. Esta máquina foi, posteriormente, foi adaptada para trabalhar com energia elétrica.
A partir da instalação da Casa da Moeda do Brasil no distrito industrial do município de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, em 1983, esta foi provida de modernos equipamentos que, juntamente com profissionais de alto gabarito têm produzido não somente as nossas moedas e cédulas, mas também selos e outros produtos.
Figura 1 – Cena de cunhagem de moedas por meio de balancim no século XVI e XVII.
Fonte: The Art of Coins and Their Photography, Spink & Son Limited, Londres, 1981.
Até bem pouco tempo as moedas brasileiras, inclusive as da segunda família do real eram confeccionadas da seguinte maneira:
O processo iniciava-se pela elaboração do projeto técnico do produto, com a definição do processo de fabricação e das características das moedas: diâmetro, peso, espessura, metal, tipo de acabamento e outros detalhes. Seguia-se uma pesquisa conjunta CMB/BCB, no qual eram escolhidas as imagens para cada denominação de moeda. Cada leiaute era executado em computação gráfica e enviado ao BC para aprovação.
Aprovados os leiautes dava-se início a produção do conjunto matrizeiro. O gravador fazia um molde em gesso ou plastilina (massa de modelar), ampliado, com todos os elementos da moeda. Este molde, depois de galvanizado era reduzido em pantógrafo bidimensional gerando uma cópia positiva no exato tamanho da moeda. A partir desta cópia eram produzidos os cunhos, negativos. A mudança da data era feita através da raspagem do punção e regravação, também em pantógrafo bidimensional.
No ano de 2004, a Casa da Moeda do Brasil inaugura com a moeda de R$ 0,50, um novo e moderno processo de produção: a modelagem virtual tridimensional[ii] e a produção do punção via centro de usinagem.
Pronta a moeda virtual, o computador encarrega-se, via CNC, da geração um punção – positivo – no mesmo módulo da futura moeda. Depois de temperado, o punção gera os cunhos necessários para as prensas. Esquematicamente a produção de cunhos para moedas é: Modelagem virtual --> redução CNC (positiva) --> transporte do cunho (negativo) --> moeda;
Todos os elementos de composição das moedas (legendas, data, valor, efígie e etc.) são executados ou inseridos durante a fase de modelagem virtual, sendo a serrilha feita com ferramentas próprias durante o ato da cunhagem.
O Departamento de Moedas e Medalhas (DEMOM) possui capacidade instalada para produzir até 4 bilhões de moedas, operando em 3 turnos de trabalho, atendendo assim a toda a necessidade de moedas do meio circulante brasileiro.
Para o processo de fabricação de moedas atuais compõe-se das etapas de eletrodeposição de discos, preparação dos ferramentais de cunhagem, cunhagem das moedas propriamente ditas, e finalmente, a contagem/embalagem das mesmas.
Para a eletrodeposição de discos, a Casa da Moeda dispõe, desde 1998, de moderna planta para revestimento em ligas de cobre e bronze, com capacidade para atendimento de toda a demanda do País, podendo, eventualmente, atender encomendas do exterior.
Os ferramentais de cunhagem, considerados primordiais em termos de segurança do produto, são fabricados no DEMOM, através da utilização de modernos equipamentos como torno mecânico a comando numérico computadorizado (CNC) e sistema de eletro erosão a fio e por penetração.
Na cunhagem de moedas, encontram-se em operação prensas de cunhagem horizontais e verticais, sendo estas utilizadas também para a cunhagem de moedas bi metálicas (R$ 1,00). Todas dotadas de contadores eletrônicos que garantem a segurança e controle do processo.
Ao final deste processo existem três linhas de contagem totalmente automatizadas, com capacidade para contar/embalar até 6 denominações (valor facial) de moedas. Os números obtidos nesses contadores são comparados com aqueles registrados nas prensas, assegurando que a quantidade produzida será efetivamente entregue ao Banco Central do Brasil.
O DEMOM fabrica ainda produtos na área de numismática como moedas comemorativas, moedas com acabamento especial, medalhas comemorativas, comendas e distintivos, utilizando metais nobres como ouro, prata e outras ligas, podendo atuar também para o mercado externo.
Como forma de garantir a segurança física e patrimonial do processo, o Departamento dispõe de sistema de circuito fechado de TV.
Parece simples, mas o processo exige pessoas altamente capacitadas e maquinário moderno. Podemos discordar ou não gostar do tema das moedas do real, mas não podemos deixar de reconhecer o talento que cada moedinha exige de todos os colaboradores da Casa da Moeda do Brasil e dos setores diretamente envolvidos no Banco Central.
Confira quanto se gasta para produzir as moedas brasileiras:
Cada moeda de R$0,01 sai por R$0,06
Cada moeda de R$0,10 sai por R$0,08
Cada moeda de R$0,25 sai por R$0,011
Cada moeda de R$0,50 sai por R$0,11
Cada moeda de R$1,00 sai por R$0,13
“OLHAR UMA MOEDA É COMO FOLHEAR UM LIVRO DE HISTÓRIA”.
1 Anel de aço com ranhuras ou outro ornato que tem a função de “segurar” a peça no momento da cunhagem, evitando a sua expansão, e dando a estas um diâmetro uniforme. Nas moedas modernas a virola é a ferramenta responsável pela produção da serrilha, sendo que a sua quebra ou falta produz alguns dos tipos de variantes de cunhagem. No Brasil começou a ser usada a partir de fins de novembro de 1833.
2 A modelagem virtual tridimensional é feita em computador, com softwares especialmente desenhados para a produção de moedas.


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